16 junho 2009

Mistheres

O que existe de comum em todas as mulheres? A capacidade de sacrificar-se, segundo o filme Caramelo. De produção franco-libanesa, tem como cenário um salão de beleza. Lá, aplica-se caramelo na pele para a depilação das mulheres daquele país. Indicação rápida do que acontece nas histórias das mulheres do filme: uma mistura de doçura e dor.

Personagens trabalham com a questão do sacrifício do amor em suas vidas: renúncia pela irmã doente, luta até o limite da possibilidade, conformação aos padrões da sociedade para não perdê-lo. O ícone delas é Maria, na versão católica, desfilando em procissão pelas ruas cheias de sol.

Um mundo misterioso se apresenta para mim neste filme. E nem tanto a Beirute que desconhecia, cidade que parece estar na fronteira entre dois mundos, com costumes que atribuímos serem árabes e com devoção religiosa e fenótipos ocidentais.

Quem sabe preciso fazer uma viagem até lá para conhecer de perto este interessante povo. Mas para o mistério profundo do filme, as mulheres, creio que não há viagem que se possa fazer para desvendar este segredo.

Elas são o grande enigma apresentado no filme. Com sua beleza, complexidade e diferença em relação ao homem elas serão sempre um mistério para nós. Mulher como sinônimo de mistério. Ou para compactar, mistheres.

13 junho 2009

Dia dos Namorados

Um ponto de interrogação espanhol fisga meus pensamentos e me coloca em pé logo cedo. "O que se faz no dia dos namorados?"

Sexo, muito sexo. Caprichado, criativo, ousado, ardente, de marcar na pele e na alma as marcas do amor. Os namorados também dão presentes caros e jantam em restaurantes finos, mas principalmente fazem sexo, sendo as demais coisas apenas acessórios de uma boa transa. Indispensáveis, dizem, mas acessórios.

Pelo menos é que vejo nas mensagens que procuram passar sobre a data. "Dê este presente e ganhe de sua namorada uma noite ardente". "Use este vestido, e seu namorado não resistirá aos seus encantos". "Jante em nosso restaurante. A sobremesa você ganhará de sua namorada". Sexo no Dia dos Namorados é o Papai Noel no Natal na ótica do marketing.

Feriadão, estou em modo de espera. Navego sem pressa por páginas de amenidades e me deparo, espantado, com a cara da atriz. Apesar dos liftings e outras prováveis intervenções cirúrgicas, ela me parece muito envelhecida. A imagem sexy já não consegue ser sustentada. Fazia tempo que não tinha notícias dela, e agora entendo o por que.

De noite, assisto distraído ao Two and a Half Men. Para variar, no quarto do Charlie está a mulher do outro. O marido, um ricaço, descobre o caso e Charlie precisa passar a lábia nele. Para isto, usa como estratégia dar atenção. O velho desabafa. No passado, havia sido como ele e se dado bem. Velho, pensou que poderia preservar o estado de felicidade que um bom sexo proporciona e por isto casou-se com uma mulher jovem. O que ele não havia percebido é que os tempos (e seu corpo) são outros. Dá conselhos ao garanhão para que mude o eixo de sua vida. Uma pitada de reflexão num seriado cujo único compromisso é fazer rir.

Na madrugada, uma charada insiste em esconder meu sono:
fato 1: A necessidade básica do ser humano é o amor.
fato 2: O sexo pode ser uma expressão forte de amor, porque exige tudo de nós: mente e alma, passando pelo corpo.
fato 3: Desejamos ser amados até à morte.
fato 4: O sexo é efêmero.

O círculo não se fecha.

O sono vai chegando manso enquanto devaneio o que vou querer receber no próximo Dia dos Namorados.

12 junho 2009

Lição das alturas




O carro gemia, cansado pelo esforço de percorrer o íngreme caminho que dava acesso à vista. Da estrada asfaltada ao local de estacionamento na pedra, mil metros de altura e enormes sulcos na terra, ferida pelas chuvas e pelo descaso.

Preocupado em não deixar o carro sumir em algum buraco, dirigia resfolegante, o frio do clima batendo de frente com meu corpo molhado pela tensão.

Definitivamente, o passeio era para a visitante, mas não para mim. Nem por causa da dificuldade de acesso, ou da contabilização possível de prejuízo em meu carro, mas porque as promessas de resultado me pareciam pequenas.

O nome da pedra que subíamos de carro já parecia me dizer o que eu poderia esperar: Bauzinho. Como havia explicado para ela, "inho" em português era diminutivo, e à parte da boa gramática, neste caso "inho" também poderia ser um comparativo depreciativo, diante da grandiosidade que ficava ao seu lado.

Portanto, uma experiência menor me aguardaria, se comparada com a que vivi há poucos meses atrás na outra pedra, a do Baú. Naquele dia passei por um turbilhão de emoções. O medo inicial da subida na rocha nua, oscilante entre pernas trêmulas, o desafio físico e também mental de não poder desistir no meio do caminho, a chegada ao céu, entre nuvens, estufando alegria pela vitória alcançada.

Mas subir de carro na pedra menor não era propriamente uma aventura.

Descemos no estacionamento vazio em busca do curto caminho até o topo. A subida na pedra não era o motivo do passeio, diziam, mas sim a contemplação da vista, com o vale extenso embaixo e ao lado a personagem central, a grande pedra. A pequena pedra seria então uma espécie de admiradora da outra.

O vento cortante que atravessava como espada aguda nossos casacos parecia enviar mensagens de alerta para o que ocorreria em seguida. Um curto e fácil caminho, e estávamos diante da cena. Como que atacado de surpresa, não consegui falar nada, a não ser deixar escapar um oh!, maravilhado com o que via. Se adoração significa reconhecimento de superioridade, eu ali tinha meu momento de culto a Deus, que erigiu aquele monumento fantástico.

No retorno à estrada de asfalto, dirigi leve, o professor dentro de mim fazendo-me processar o aprendizado. Toda experiência, disse ele, oferece lições, desde que tenhamos a humildade de aceitá-las do jeito que elas chegam. No caso da grande pedra, aprendi a importância da determinação e esforço em busca de um objetivo. E me senti grande. Na pequena pedra, aprendi sobre a grandiosidade da contemplação passiva. E me senti feliz por ser pequeno.

11 junho 2009

Choque de culturas



Eu estava encarregado de ciceronear a senhora chinesa recém chegada. Preocupado em lhe dar conforto e ao mesmo tempo proporcionar contato com o país que vivemos, planejei levá-la a um restaurante que me parecia oferecer uma boa comida brasileira que não fizesse mal ao seu corpo frágil.

O problema era o ambiente do restaurante. Embora estivesse em um entorno privilegiado, com vista para uma magnífica montanha, a aparência do restaurante era bem rústica. As paredes, pintadas a cal, apresentavam irregularidades no acabamento, mesmo vistas à luz fraca que saía com custo das lâmpadas nuas que se esgueiravam penduradas do teto alto. As mesas de madeira, cobertas com um plástico transparente, oscilavam incertas como se ao sabor de ondas.

Maior problema ainda era a entrada para o restaurante. Precisando atender a dois públicos no mesmo endereço, o dono instalou um bar de cidade pequena na parte da frente do restaurante, o balcão do refrigerador, com o vidro suado, servindo também de mesa para os frequentadores simples da cidade.

Procurando amortizar o possível choque de minha visitante internacional, enquanto deslizávamos pela estrada sinuosa, disse em tom de desculpa que o local era muito simples, mas com boa vista e com uma gostosa refeição brasileira.

Sua reação me causou espanto. No inglês cantado pelo sotaque, comentou, como que contemplando um perfeito por de sol: "para a cultura chinesa, as características do local que você descreve soam poéticas: um local simples, com boa vista e uma refeição gostosa. Isto é muito poético!" - enfatizou.

Os elementos do ambiente do restaurante que para mim pareciam viver em tensão conflituosa, para ela era uma tríade harmônica que descrevia um lugar perfeito. Para ela, o simples era virtude.

Um choque de cultura. Não pela chinesa, mas sim pela minha, envergonhado que fiquei por descobrir nela valores suspeitos.

O Homem Hidropônico


Conversávamos sobre a questão do arrombamento do privado. A sociedade, como um predador, escolhe a presa que passa, a abate e expõe suas entranhas. Faz um trabalho de dissecação, e depois de consumí-la, descarta seus ossos.

A vítima corre porque sabe o perigo de ficar à mercê daquele que quer violar sua intimidade, o que pode significar a destruição de sua vida. Em sentido literal ou metafórico.

Mas existe uma relação ambígua com o predador. Um outro lado seu corre em direção oposta. O predador tem um poder magnetizante que a seduz, como se a entrega e exposição de seu ser inteiro possibilitasse um clímax de existência.

A conversa que mantínhamos sobre a tensão entre a necessidade de preservação e a de exposição de segredos era até então como entre deuses gregos, comentando em tom blasé as complexidades nem sempre harmônicas do ser humano.

Até que começamos a falar de blogs. E então percebemos que este dilema também era nosso. Ela já tinha, e eu pensava em ter. Parecia incoerente. Se protegemos com recato nosso mundo secreto, se cultivamos com cuidado as plantas que florescem em nosso pequeno mundo rarefeito, por que ter blogs?

Conseguimos chegar somente até este ponto. O assunto parecia precisar enveredar-se sobre complexos campos interdisciplinares de conhecimento que não temos domínio.

Hoje, quando decido escrever, continuo sem resposta às nossas indagações. A certeza que fica é apenas de uma sensação, que dá título ao post.

Sempre que pego um vegetal hidropônico, tenho uma sensação de constrangimento e talvez pena dele. Na minha fantasia antropomórfica, ele passou toda sua existência nu, as raízes brancas boiando na água cheia de nutrientes, as intimidades expostas sem segredos. Coloco-me em seu lugar e sinto vergonha por ele.

É com este sentimento que faço meu primeiro post. Talvez mais tarde me acostume com a idéia, e quem sabe até sinta prazer nisto. Mas se isto acontecer, é cura ou degradação?

A figura foi feita por minha amiga, a partir do que "imaginava que eu estava imaginando" quando disse que me sentia um homem hidropônico ao pensar em fazer este blog.